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Coronavírus – Uma pandemia moral

A doença que vem matando milhões evidenciou ainda mais o lado oculto do ser humano. Confira na crônica de Marcio Trojahn esta reflexão sobre um dos muitos ângulos da pandemia

Mesmo diante do grande avanço feito pela ciência no enfrentamento do vírus Sars-CoV-2, vírus causador da Covid-19, muito há que se estudar para desvendar o mistério que faz essa microscópica partícula, a começar pelas correntes científicas que discutem se ele é ou não um ser vivo. Mas deixemos essas questões para quem realmente entende.

As diferentes formas como ele age em cada pessoa, os grupos mais vulneráveis, as formas de contágio, possíveis tratamentos e até a vacina foram e continuam sendo alvo de intensos debates dentro e fora do âmbito científico, o que é uma lástima. Governantes de todas as esferas utilizando este que é uma das priores, senão a pior crise sanitária dos últimos cem anos para beneficiar interesses próprios, quando não para prejudicar deliberadamente a sociedade, semeando a ignorância que brota de suas consciências egoístas.

A incerteza quanto ao futuro que já atingia muita gente foi potencializada pelo adubo do desemprego, do fechamento do comércio, do isolamento social, e mais adiante pela perda de parentes, amigos, vizinhos, que começaram a tombar diante do inimigo invisível. Nesse aspecto a Covid-19 se mostra mais cruel. Imaginem o doente morrer em uma cama de UTI, maca de ambulância ou no corredor de um Pronto Socorro. Não poder se despedir é um drama em dose dupla. De um lado a família que não pode sequer dar um sepultamento ao ente querido, do outro, o doente que viu seus olhos cerrarem-se para sempre sem dizer uma palavra a quem ficou em casa.

O isolamento a que a população foi obrigada a fazer, de início foi compreendido, porém, o ser humano é uma espécie essencialmente social, isto é, ele tem sua vida alicerçada no convívio com seus iguais e interrupção dessa rotina trouxe inevitavelmente um prejuízo de ordem psicológica de difícil enfrentamento. Fora de casa, o vírus assustava. Recluso no lar, a depressão chegou a galope e tomou de assalto muitas pessoas que com medo da doença que continuava a chegar pelos noticiários, tiveram dificuldade até em procurar ajuda.

A pandemia trouxe, além da Covid-19, inúmeras doenças, de ordem psíquica umas, e de moralidade outras. Na verdade, as situações de risco, a iminência do contágio, enfim, fez com que muitos revelassem suas verdadeiras identidades. Os extremismos se evidenciaram, como se não pudesse haver um equilíbrio. Notadamente na política, os indivíduos passaram a se posicionar com radicalismos a ponto de chegar às raias do “quem não pensa como eu é meu opositor”. Mas por favor, a que ponto chegamos? Em um período onde o avanço tecnológico permitiu que em menos de um ano uma vacina fosse desenvolvida, continuamos a nos comportar como selvagens. Já não nos digladiamos em arenas, mas somos protagonistas de uma tragédia moral de proporções e resultados ainda maiores.

Somos capazes dos maiores feitos, mas não conseguimos perceber que o que está em jogo é muito mais que a economia, vital para o modelo social em que vivemos, mas a vida da espécie humana. Até a maioria dos animais consegue se organizar melhor do que o homem tem dado mostras.

As maiores nações do mundo dispenderam ao longo do último século quantias faraônicas para desenvolver um aparato bélico capaz de destruir o mundo em instantes, tudo para se defender dos países que julgavam oferecer algum perigo. Quanta presunção. Foi preciso apenas um vírus que sequer é visto pelo olho humano para por essas mesmas nações de joelhos. Se uma pequena parcela desse recurso tivesse sido utilizado em pesquisas e prevenção, talvez não estivéssemos a braços com tudo isso.

A pandemia deve ser encarada como um ótimo exercício onde diversos setores concorrem juntos para o mesmo fim, qual seja, vencer o vírus. Dela precisamos tirar o máximo proveito, aprender cada lição que nos oferece de modo a que acumulemos o máximo de aprendizados para no futuro errar menos e com mais preparo, ter a consciência de que somos realmente pessoas melhores.

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