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De medicamentos a plástico: você sabe o que há na água que consumimos?

Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou relatório alertando para a necessidade de ampliar os estudos sobre o tema

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Não é só a água que escorre pelas torneiras que pode estar contaminada por uma infinidade de resíduos. As versões engarrafadas também contêm uma série de substâncias, e ainda não se sabe ao certo o impacto na saúde humana. A incerteza é tamanha que, recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou relatório alertando para a necessidade de ampliar os estudos sobre o tema.

— Precisamos conhecer, urgentemente, os impactos à saúde dos microplásticos, pois eles estão em todos os lugares, inclusive na nossa água potável — falou, à época da apresentação do texto, Maria Neira, diretora do Departamento de Saúde Pública, Meio Ambiente e Determinantes Sociais da Saúde da OMS.

O sinal vermelho não é para menos: as pesquisas sobre o assunto revelam números preocupantes. Em 2017, a revista científica digital Plos One publicou um estudo sobre o microplástico na água potável. Liderado por Mary Kosuth, da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, o levantamento analisou 159 amostras de água da torneira de seis regiões, em cinco continentes. Os resultados mostraram que 83% delas continham partículas de plástico, das quais a grande maioria era composta por fibras milimétricas.  

Na prática, ilustra a autora do estudo, ao seguir a recomendação da National Academy of Medicine de beber três litros de água diariamente, um homem ingere 14 partículas plásticas por dia, o que soma bem mais de 4 mil micropedaços em um ano. Fora isso, há de se acrescentar nessa conta outros elementos ligados à água, como, cafés, sal marinho, frutos do mar e até mesmo cerveja.

Como têm proporções milimétricas e podem ser invisíveis a olho nu, esses fragmentos passam despercebidos. Frederico Brandini, professor titular no Departamento de Oceanografia Biológica do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), observa que a população em geral só se preocupa com aquilo que vê:

— Ele (o plástico normal) se incrusta no meio e afeta o topo da teia alimentar. Tartarugas, peixes e tubarões acabam se alimentando dele e morrem. Porém, o problema maior é quando ele se degrada e vira microplástico e entra na base da teia alimentar. É difícil se livrar dele, é como um vírus.

Reverter todos esses estragos ao meio ambiente com impactos ainda desconhecidos nos humanos passa, obrigatoriamente, por uma mudança de mentalidade, sugere Brandini:

— Não devemos demonizar o plástico. O problema não é ele, mas as pessoas. Precisamos educá-las para reciclagem. Como mudar isso? As futuras gerações precisam ser conscientizadas. É preciso investir na educação de base, não precisamos de educação ambiental, precisamos de educação.

Reduzir os chamados plásticos de uso único, como os canudinhos e sacolas de supermercado é um bom começo. No banheiro, vale fugir de cremes dentais com microesferas abrasivas ou esfoliantes, que podem ser originários do plástico.

Não existe apenas um vilão

Enquanto muitos olhares estão voltados para o plástico, outros contaminantes podem ser ainda mais danosos. Um exemplo são medicamentos e cosméticos, que não são degradados e contaminam a natureza.

— Aqui, está cheio de anticoncepcional, anti-inflamatório e antidepressivos — diz Brandini, apontando para a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, onde palestrou no evento Conexão Oceano.

No Rio Grande do Sul, Angelo Piato, do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), também se debruça sobre o tema. Em parcerias com outros professores, ele estuda os efeitos de alguns fármacos, em concentrações encontradas no ambiente, sobre o comportamento de peixes.

Usando como organismo modelo o peixe-zebra, o pesquisador conseguiu demonstrar como ansiolíticos, antidepressivos e antipsicóticos presentes na água impactam na saúde desses indivíduos.

— Mesmo em concentrações muito baixas, na escala de microgramas e nanogramas por litro, são capazes de promover alterações comportamentais no peixe-zebra. Se esses fármacos geram impacto no animal, também podem ter efeito sobre outros integrantes do ecossistema, incluindo o homem. A longo prazo, não sabemos o que isso significará. Beber água contaminada com fluoxetina por décadas, por exemplo, tem potencial para ser danoso — avalia.

Recentemente, o pesquisador da UFRGS também estudou a associação de um antifúngico usado comumente na agricultura nesses mesmos animais. Foi evidenciado que a exposição ao propiconazol aumentou o estresse oxidativo dos peixes e também provocou alterações comportamentais.

Mas você pode estar se perguntando: como essas substâncias chegam às águas? No caso dos medicamentos, há duas hipóteses possíveis. A primeira, é o descarte inadequado, como o de medicamentos com validade vencida nos vasos sanitários. A outra é por meio da nossa própria urina.

— Se você tomou um paracetamol hoje pela manhã, quando urinar, uma porcentagem disso vai parar no vaso. Os fármacos são estruturas pequenas que conseguem, em alguma porcentagem, escapar dos sistemas de tratamento — exemplifica Piato.

Esses achados, embora tenham sido feitos em ambiente controlado, sugerem que isso pode ter implicações para o ecossistema e para a nossa saúde. Fora os medicamentos, os cosméticos também podem apresentar riscos. Segundo o professor da USP, não precisa ser um morador do litoral para gerar algum tipo de contaminação.

— Cosméticos, até mesmo xampus, têm substâncias cujos efeitos nos oceanos nós desconhecemos. Se você mora a pelo menos cem quilômetros da costa e usa esses produtos, ao tomar banho, eles saem pelo ralo. Daí, vão para o lençol freático, para um rio e depois de 20 anos vão parar no mar — explica Brandini.

Como as discussões ainda são recentes e as pesquisas, escassas — o Relatório Mundial sobre a Ciência Oceânica descobriu que esse assunto é responsável por no máximo 4% dos investimentos em pesquisa em todo o mundo —, ainda não dá para bater o martelo no que diz respeito aos impactos dessas intervenções no meio ambiente. Contudo, Brandini faz o alerta:

— Do ponto de vista ético, estamos destruindo a teia alimentar marinha. E o mar tem papel fundamental em vários ciclos biogeoquímicos, se eles não sobrevivem, não cumprem funções. Isso também contamina a teia alimentar e as próprias pessoas. Precisamos deixar para os nossos filhos alguma coisa. Não tenho bola de cristal, mas talvez muitas doenças de hoje, como depressão, Alzheimer e câncer estejam associadas a toda essa contaminação que nós provocamos.

Marcio Trojahn |

Fonte: GaúchaZH/CAMILA KOSACHENCO

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