Educação a distância vive bom momento com a expansão do número de matriculados

    (Foto: Divulgação)

    Até 2026, os cursos a distância vão ultrapassar o ensino presencial em número de alunos. Do total de 9,2 milhões de estudantes que estarão matriculados em instituições privadas naquele ano, 51% deles estarão inscritos em cursos on-line, aponta o estudo realizado pela consultoria Educa Insights a pedido da empresa Sagah. O cenário foi desenhado com base em três possibilidades: instituições que não ofertam EAD passarão a oferecê-la nesse intervalo de tempo; o número de polos crescerá – todas as que já trabalham com EAD terão, no mínimo, 30 polos com 100 alunos cada; e o portfólio de cursos abrangerá outras áreas, como saúde e engenharia, hoje pouco cobertas.

    Luiz Trivelato, diretor de expansão do Grupo A (ao qual a Sagah pertence), reconhece que as expectativas são otimistas, mas garante que elas também são realistas. “O MEC está desburocratizando a expansão dos polos e a tecnologia está evoluindo, permitindo a entrada de novas instituições”, avalia.
    Atualmente, 80% das matrículas em EAD estão concentradas em 10 IES, segundo o levantamento. Essa concentração ocorreu porque durante muitos anos o MEC segurou a oferta. A realidade, contudo, mudou entre 2014 e 2015 e, desde então, novos operadores estão entrando no mercado, conta o executivo.

    Já o desenvolvimento tecnológico barateou a operação. “Se há quatro anos uma instituição de ensino precisava de R$ 5 milhões para criar cursos a distância, hoje esse valor gira em torno de R$ 150 mil a R$ 200 mil”, revela.

    O termômetro do mercado
    De fato, a EAD está crescendo. Em número de matrículas, a modalidade registrou uma expansão de 4% em 2015 em relação a 2014. No presencial, o aumento foi a metade disso, 2%. Analisando um período maior, entre 2009 e 2015, o salto foi de 66% contra 29%. Olhando apenas a rede privada, que concentra grande parte da oferta, o incremento foi de 90% contra 27%.

    As estimativas do Semesp para 2016 (o Censo ainda não foi divulgado) apontam para uma leve retração de 0,4% em número de matrículas (no presencial, o decréscimo esperado é de 7,1%). Mas, para 2017, a expectativa é que o segmento cresça 3,2% – também em número de matrículas.

    Muitas causas explicam o bom momento da EAD. Uma delas é a recessão econômica, que encolheu a renda das famílias e causou cortes em programas importantes, como o Fies. Sem acesso ao financiamento e sem condições de pagar as mensalidades dos cursos presenciais, muitos acabaram optando pela modalidade a distância, acredita Carlos Fernando, pró-reitor de educação a distância da Universidade Cruzeiro do Sul. Neste início de ano, a instituição registrou, na graduação, um crescimento de 30% nas matrículas em comparação com o mesmo período do ano passado. Nos cursos de pós-graduação, o aumento foi de 50%.

    Benhur Gaio, reitor do Centro Universitário Internacional Uninter, de Curitiba (PR), concorda que o preço mais baixo incentiva o aluno a se matricular na EAD. Na instituição, o aluno da Engenharia da Computação, por exemplo, paga R$ 590 no curso a distância e R$ 905 no presencial. Em Administração, os valores são R$ 298 e R$ 720, respectivamente. “Em quatro anos, isso faz muita diferença. A EAD torna o ensino mais acessível”, diz.

    Além disso, ao contrário do que o senso comum poderia supor, a crise também estimula as pessoas a estudar, opina Luciano Sathler, diretor da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed). “Para se recolocar no mercado, muitas pessoas buscam melhorar suas qualificações e um meio de conseguir isso é fazer uma graduação ou uma pós-graduação a distância”, declara.

    Mas, em sua opinião, o que mais tem impulsionado a educação on-line é o aumento do número de pessoas com acesso à internet. Para entender por que as matrículas na EAD desde 2009 crescem, em média, o dobro do presencial, Sathler analisou diversos gráficos até se deparar com o da expansão de usuários da internet. Como mostra a pesquisa TIC Educação, divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), 34% da população brasileira era usuária da internet em 2008. Em 2015, esse indicador subiu para 58%. “Esse é o evento que talvez melhor explique a ascensão da EAD”, pontua.

    O amadurecimento da modalidade é mais uma peça importante nesse quebra-cabeça. Segundo Benhur Gaio, hoje as empresas contratam sem discriminação os egressos da EAD. Em função disso, os alunos também estão mais receptivos.

    A presença de um número crescente de jovens matriculados comprova esse dado. Atualmente, há pessoas com menos de 24 anos e outras que estão vindo diretamente no ensino médio, diz Josiane Maria de Freitas Tonelotto, reitora do EAD Laureate, que reúne os cursos a distância das universidades da rede Laureate no Brasil, entre elas Anhembi Morumbi e FMU. “Por muitos anos, o modelo presencial era simplesmente replicado no modelo a distância. As aulas eram gravadas e retransmitidas. Mas hoje é diferente. Há muito mais interação e isso graças à tecnologia”, conta. Como exemplo, ela cita a utilização de recursos de realidade virtual no curso de História. “Recentemente, trabalhamos com um vídeo de 360 graus sobre o desastre de Mariana. Foi uma experiência totalmente diferente para os alunos. Foi como se eles estivessem no local”, conta.

    É em função desse amadurecimento que, embora um de seus propósitos seja levar educação à população de regiões afastadas, a EAD ganhou força sobretudo no Sudeste, justamente a região que concentra a maior oferta de serviços educacionais.

    Jonathan Dias Holanda, de 31 anos, ilustra bem esse quadro. Formando em Marketing, o jovem executivo fez a opção pela EAD na hora de fazer a segunda graduação. Aluno do Senac EAD, ele está no 3º semestre do curso de Gestão da Tecnologia da Informação e está estudando a distância para conciliar os estudos com o trabalho. Morador da região sul de São Paulo, Holanda fundou uma empresa de tecnologia em Santos, no litoral. “Com as responsabilidades do trabalho e de casa, eu não teria condições de frequentar diariamente uma instituição de ensino”, conta.

    A experiência positiva de sua esposa com a modalidade também o estimulou a seguir em frente. Passada a fase de adaptação, período em que enfrentou dificuldade para lidar com a ausência do contato físico, Holanda se diz satisfeito. “O material é bem completo e ainda contamos com recursos como a webconferência com professores. O curso está sendo muito útil para a minha carreira”, declara.

    Aulas práticas a distância
    Se antes eram ofertados basicamente cursos das áreas de formação de professores e administração, hoje há programas com extensa carga prática. O Centro Universitário Internacional Uninter tem cursos on-line de Educação Física, Engenharia (da Computação, da Produção e Elétrica, com habilitação em Eletrônica) e, mais recentemente, de Publicidade e Propaganda e Jornalismo. Segundo o reitor Benhur Gaio, a instituição encontrou soluções inovadoras para ofertar esses programas.

    Os alunos de comunicação, por exemplo, receberão a partir do 2º ano um kit contendo uma série de equipamentos profissionais, incluindo câmera fotográfica, gravador e filmadora. Eles também terão acesso a mais de 20 softwares da Adobe para editar o material captado. “Nós trabalhamos por mais de dois anos na estruturação desses programas. São formações que chegam a ter 50% de carga prática, mas que, nessas condições, podem ser ofertadas a distância. Estamos provendo aos alunos todas as condições para a experimentação, para a prática”, assegura.

    Solução semelhante foi adotada nos cursos de engenharia. Os alunos também recebem kits que funcionam como laboratórios pessoais. Os kits contêm itens como multímetro (aparelho para realizar medições elétricas) e osciloscópio (instrumento utilizado para analisar sinais eletrônicos). Tanto aqui como nos cursos de comunicação, os materiais não geram custos extras aos alunos e são cedidos integralmente. “A experiência nas engenharias foi tão positiva que tivemos de disponibilizar os kits para os alunos do presencial”, conta o reitor.

    Já para o curso de Educação Física, a solução foi fechar parcerias com escolas e até academias. “De maneira geral, todos os programas estão indo bem. O número de alunos matriculados está acima do esperado”, comemora. O total de estudantes na EAD, contudo, não foi revelado por se tratar de uma informação estratégica, segundo justificativas.

    Já a Cruzeiro do Sul lançou neste ano uma graduação tecnológica em Gastronomia. Segundo Rosana Toledo, coordenadora do curso, neste primeiro semestre os alunos terão exclusivamente aulas teóricas sobre temas como história da gastronomia, empreendedorismo e gestão. Mas, a partir de agosto, eles também terão aulas práticas. As aulas serão gravadas e ensinarão todas as técnicas necessárias aos alunos. A solução encontrada para avaliá-los foi prever o envio de vídeos feitos por eles. “Os alunos terão de filmar a execução do prato e, com isso, será possível analisar aspectos como a postura do aluno, a higiene, a mis en place”, detalha. Os estudantes também aprenderão técnicas profissionais para avaliar o resultado final de um prato, ou seja, o sabor, as texturas, o ponto de cocção e o aspecto. A ideia é trabalhar com autoavaliações, adianta a coordenadora.

    Além disso, de tempos em tempos, os alunos serão chamados aos polos para participar de atividades práticas. A frequência com que acontecerão esses encontros ainda não foi definida, mas Rosana garante que esse será um dos diferenciais do curso. Até o início de março, 189 alunos tinham se matriculado.

    Com todas essas mudanças em curso – ampliação do portfólio de cursos, entrada de novas instituições, maior adesão do público –, o estudo encomendado pela empresa Sagah define a educação a distância como uma “defesa agressiva”. Explicando em outros termos, a EAD deve ser vista como uma oportunidade para crescer e fazer frente à concorrência dos grandes grupos, que, por meio dos polos, estão chegando a todos os mercados. Segundo Trivelato, como a barreira da entrada hoje é menor – os custos são mais baixos, há mais provedores de produtos e serviços –, os gestores que estão fora desse mercado devem repensar suas estratégias de negócios para disputar alunos e crescer.

    Revista Educação – Ensino Superior