Rodrigo foi confundido com criminoso e tenta esclarecer boatos da internet

    O drama do palhaço Rodrigo Ramos de Santana do Livramento: das ruas às redes sociais

    15/outubro/2016 às 21h56min
     Atualizado segunda-feira, dia 17 de outubro de 2016 às 01h32min
    Ralph Quevedo/AP

    Rodrigo Ramos Rodrigues tem 21 anos de idade e jamais imaginou que um dia seria hostilizado por se pintar de palhaço. Tudo começou com um programa de marketing e vídeos virais para a promoção de um filme que circularam por todo o mundo até chegar à Livramento. Além disso, diversas notícias de prisões em todo o mundo sobre palhaços assassinos assustaram a comunidade. O que antes, para Rodrigo, era uma forma de entreter pessoas no semáforo e ganhar o seu pão diário, se tornou em pesadelo.

    Rodrigo contou que sempre usava o nariz de palhaço para as suas apresentações e foi justamente por notar o preconceito nas pessoas que resolveu usar a tinta branca e incorporar um personagem: “As pessoas tem preconceito. Elas me discriminam pela minha cor de pele; então pensei que um palhaço branco poderia ganhar mais a atenção nas ruas”, disse.

    Eu não machuquei ninguém
    Rodrigo conta que quando soube que tinham lhe fotografado e publicado sua imagem nas redes sociais associando com crimes e violência, logo procurou a Delegacia de Polícia para esclarecer e se colocar à disposição. Ele disse que mora nas ruas, mas não é uma má pessoa.

    Justamente pela associação da foto com boatos de violência, Rodrigo precisou abandonar o figurino e o personagem de palhaço. “Uns caras me ameaçaram. Nas ruas eles gritavam e fiquei com medo. Precisei me esconder”, disse.

    Amigos Empresários
    O fato chocou as pessoas e comunidade que realmente conhecem o jovem palhaço do semáforo. Nas proximidades do Posto Espigão, na avenida João Goulart, funcionárias de uma padaria disseram conhecer Rodrigo e o ajudar com copos de água. Um mecânico próximo também disse que ele é boa gente e nunca fez mal a ninguém e sempre o via trabalhar no sinal com a sua arte para receber algum trocado.

    Numa loja de rações para cachorros e gatos, o proprietário disse conhecer Rodrigo, até o ajuda com comida e água e disse ter ficado chateado com o boato maldoso que espalharam a respeito do jovem.

    Quando a reportagem acompanhou Rodrigo para a transformação do personagem e gravação da matéria, uma empresária com loja na rua Rivadávia, que lhe ajuda desde os 18 anos de idade, disse ficar triste com atitudes negativas: “Eu conheço o Rodrigo, ele é um guri do bem, só precisa de ajuda e oportunidade, isso não deveria ter acontecido”, disse ela.

    A transformação
    Atendendo ao pedido da reportagem, Rodrigo topou o desafio de novamente se pintar como palhaço e encarar as ruas e o semáforo onde tudo teria acontecido. A transformação foi ali mesmo, na rua. Com um pequeno espelho na mão, Rodrigo começou vestindo a roupa e depois cuidando da pintura. Foram aproximadamente 30min para incorporar o personagem e, nestes minutos, a reportagem foi testemunha de três insultos de pessoas que passavam dirigindo carros. Uns gritaram palavras de ofensa e outros desmereciam o trabalho do jovem, julgando-o ainda como o ‘palhaço assassino’. Outras pessoas entenderam a situação e cumprimentaram o jovem e até o parabenizaram durante a sua apresentação na sinaleira.

    O espanto no Centro
    Na Rua dos Andradas, Rodrigo Ramos caminhou vestido de palhaço e foi seguido pelo fotógrafo e repórter da Plateia. Muitas pessoas se espantaram, outros foram apenas curiosos e outros tantos cumprimentaram o jovem ao perceber que ele fazia apenas um trabalho.

    Nessa caminhada, a senhora Ana Alice disse não ter se intimidado e até abraçou o palhaço. Ela disse que é mãe de um guri da mesma idade do Rodrigo e compreende como deve ser difícil a luta para ganhar um trocado e ainda enfrentar o preconceito nas ruas. Outros jovens posaram para foto e se divertiram com a aparição do palhaço pelo centro.

    Foi tudo um mal entendido
    Durante a semana, a foto de Rodrigo ganhou as redes sociais e foi associada com atos de violência – até o momento considerado boato pela Polícia Civil e Brigada Militar. Outros perfis nas redes sociais divulgaram vídeos e outras supostas aparições de palhaços que estariam ‘tocando o terror’ em Livramento. Nenhum dos casos foi considerado real e até o momento acredita-se que tudo tenha sido apenas uma grande piada de mau gosto que acompanhou outras reações do mundo. Enquanto tudo procura se resolver, Rodrigo busca ganhar dinheiro com outros bicos na esperança de poder voltar a fazer malabares como palhaço na sinaleira da avenida João Goulart.

    Nota da Polícia Civil
    “ATAQUE DE PALHAÇOS: a Polícia Civil de Santana do Livramento informa que as investigações levadas a efeito até o momento NÃO CONFIRMAM a existência de supostas agressões feitas por palhaços, tampouco que a foto veiculada nas redes sociais seja aqui da cidade. Nenhum registro de ocorrência foi feito por eventual vítima e não existem testemunhas que tenham visto pessoas vestidas de palhaços. Ao que tudo indica, trata-se de BOATO. Informações concretas a respeito poderão ser dadas de forma anônima através do número 197 ou diretamente à seção de investigação n.º 3242-2129”.

    Elis Regina / A Plateia

    Assista o vídeo feito pelo jornalismo A Plateia

    Veja as fotos