Tensão e ofensas marcam debate de candidatos na Rádio Cultura

    19/setembro/2016 às 15h49min
     Atualizado terça-feira, dia 20 de setembro de 2016 às 00h57min
    Francisco Bosco

    Se alguém esperava que o debate dos candidatos à Prefeitura de Bagé, realizado pelo programa Visão Geral da Rádio Cultura, no sábado, fosse algo capaz de mostrar propostas para a futura administração do município, acabou frustrado. Um clima de críticas aos resultados da pesquisa eleitoral do Instituto Methodus, que foi divuldada pela FOLHA do SUL, motivou os debates conduzidos pelo apresentador Edgar Muza.

    O programa, conforme acordo prévio com os candidatos, foi pautado pelo sorteio dos temas que seriam abordados por cada participante podendo, cada um, usar o seu tempo de três minutos para responder, livremente, à críticas e comentários de qualquer adversário. As acusações, defesas e críticas – algumas vezes admitidas pelos próprios debatedores – roubaram a oportunidade dos ouvintes conhecerem um pouco mais das suas ideias e proposições para a gestão 2017/2020.

    Zoinho (PSL)
    O candidato Uidson Ricardo Santo dos Santos (Zoinho), do PSL, iniciou sua participação fazendo críticas ao candidato Divaldo Lara (PTB). Fez referência ao candidato, enquanto presidente da Câmara de Vereadores, ter investido volumosos recursos em publicidade. Segundo ele, seu projeto é investir 90% desses recursos na área da Educação, para dar ao povo a capacidade de escolher os seus governantes, tendo o conhecimento suficiente para não eleger corruptos.

    Na área de infraestrutura, o candidato manifestou preocupação com o fornecimento de água para que as empresas que se instalem no município possam gerar empregos. Também criticou o Legislativo por aprovar a Lei que reajustou em 425% os salários dos procuradores do município. Zoinho disse que, pelas origens políticas de Divaldo Lara – que foi assessor da irmã Adriana Lara na Secretaria do Trabalho e Assistência Social no governo Mainardi – não deveria ser candidato de oposição.

    O candidato do PSL ainda alfinetou a atual administração por permitir o fechamento do Hemocentro e, recentemente, do Hospital Universitário. Já em relação à Barragem da Arvorezinha, o representante do PSL acusou o Legislativo por não exercer a sua função de fiscalizar as ações do Executivo, e encerrou prometendo que nunca mais fará política partidária se as denúncias feitas pelo Ministério Público contra o presidente da Câmara não estiverem bem fundamentadas.

    Sapiran Brito (PDT)

    Inicialmente respondendo sobre o tema sorteado, Educação, o candidato destacou a tradição de seu partido nessa área – desde os tempos de Leonel Brizola – com as escolas de tempo integral. Disse, também, que Bagé tem um bom programa em desenvolvimento da educação, onde já conseguiu importantes conquistas. Para a segurança, o candidato prometeu criar a Guarda Municipal, como uma espécie de apêndice da Brigada Militar. “A corporação (BM) faz um bom trabalho, apesar das suas carências de contingente e material. Temos que valorizar esses profissionais que muitas vezes se superam para cumprir as suas funções”, ressaltou.

    Brito também falou no seu espaço sobre a ausência de conteúdos de Educação Cívica aos jovens, fator essencial para o surgimento de novos líderes políticos, como acontecia até o Golpe Militar de 1964. Conforme Sapiran, essa seria a forma mais correta de impedir que políticos profissionais se apossem do poder. Criticou, por outro lado, o “coronelismo familiar” que está se instalando em Bagé e, especialmente, ao candidato Divaldo Lara, por passar uma mensagem de baixo astral à população, enquanto há muita coisa bonita para reverenciar.

    Sapiran Brito cobrou da mídia local maior divulgação sobre as denúncias que o Ministério Público fez contra Divaldo Lara; no caso denúncias de improbidade administrativa, enriquecimento ilícito e atos abusivos ao erário público. “Ninguém está inventando nada, você terá que responder à Justiça”, disse o pedetista. Por fim, ele criticou a pesquisa eleitoral feita pelo Instituto Methodus e publicada pela FOLHA do SUL, em que Divaldo Lara aparece com 67% das intenções de voto. “Precisamos estar todos unidos contra o perigo eminente representado pelo segundo Collor”, finalizou.

    Chico Estigarribia (PSOL)
    O candidato do PSOL, Francisco Estigarribia, iniciou sua fala abordando o tema Segurança. Ele disse que o setor está enfrentando dificuldades que são conhecidas, como a falta de efetivo, e criticou a priorização da estrutura existente para o atendimento dos fazendeiros no combate ao abigeato, destacando a agilidade com que essas ocorrências são atendidas. Prometeu, se eleito, criar uma Guarda Municipal desarmada.

    Do ponto de vista ideológico, o candidato criticou o sistema capitalista e revelou que prega a desobediência civil nos casos em que milhares de pessoas precisam praticar pequenos furtos para combater a fome, o chamado crime famélico. “Vivemos num sistema excludente, com o acúmulo de muito dinheiro na mão de poucos”, protestou.

    Já em relação à administração municipal que pretende realizar, Estigarribia prometeu municipalizar os serviços de transporte e coleta de lixo, reduzir os Cargos de Confiança (CCs), valorizar os servidores públicos na ocupação de cargos administrativos em secretarias e órgãos públicos.

    No plano político, o candidato criticou os cinco partidos que fizeram, recentemente, parte da administração do prefeito Dudu Colombo, e que mudaram de lado para apoiarem Divaldo. “Pularam do barco”, disse. O candidato do PSOL fez duras críticas a Lara por ter feito a sua declaração patrimonial constando possuir apenas um automóvel Fusca e um terreno, mas por morar em uma mansão, andar numa caminhonete de luxo e ter tido acesso a diárias de R$ 100 mil.

    Divaldo Lara (PTB)

    Em seus pronunciamentos ao longo do programa, Divaldo Lara criticou a política econômica dos ex-presidentes Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef com reflexos nos municípios e, especialmente, na área da construção civil em todo o país.

    Para Divaldo, a Prefeitura teria que ter se preparado para enfrentar a crise, fazendo algumas reservas, o que não aconteceu. Criticou o que chamou de “desmonte” na Saúde, com a demissão de mais de 600 funcionários. Disse também que o município deveria ter destinado recursos para investimentos ao Hospital Universitário.

    Conforme o candidato, as estradas vicinais estão abandonadas sem nenhum tipo de manutenção preventiva e que em 16 anos do governo petista, não foi construída uma única ponte no interior do município. Já no tocante à campanha, Divaldo Lara foi enfático ao criticar os quatros adversários por estarem unidos contra ele.

    Quanto às acusações de enriquecimento ilícito, o candidato rebateu ao afirmar que os bens apontados pelos concorrentes pertencem a sua esposa, que tem uma situação econômica e patrimonial sólida. “Sou ficha limpa. Provem as acusações contra mim”.

    Em relação ao “roubo da Barragem”, Divaldo perguntou: “por que não falam?” O candidato do PTB também disse que as denúncias apresentadas contra si, “são uma armação vergonhosa”. Inclusive, citou que há uma Ação Civil Pública contra o candidato Carlos Alberto Fico e CPIs contra outras pessoas. Divaldo Lara terminou agradecendo a população que lhe conferiu na pesquisa do Instituto Methodus quase 70% da preferência para o dia 2 de outubro.

    Carlos Alberto Fico (PCdoB)
    Mesmo sem deixar de responder as questões pertinentes aos temas sorteados, o candidato Carlos Alberto Fico dedicou boa parte do seu tempo para “desmentir” as acusações e afirmativas do candidato Divaldo Lara, relacionadas à atual administração, da qual faz parte. Disse que o município vem fazendo grandes investimentos -desde o governo Mainardi – em habitação, inclusive, na área rural, para as famílias de baixa renda, citando os últimos residenciais: Guarani, Guenoas e São Sebastião.

    Em resposta a Divaldo Lara, o candidato comunista lembrou que as demissões referidas foram por determinação da Justiça, para que fossem rompidos os convênios com a Urcamp e com a Santa Casa, na época.

    Disse, também, que são infundadas as acusações de que investimentos nas áreas da Saúde e da Educação são inferiores ao que prevê a legislação. Segundo Fico, esses investimentos são de 25% e 32%, bem acima do previsto na Constituição. Ele também afirmou que não responde a nenhum processo por crime de responsabilidade, tão pouco inquérito no Ministério Público.

    “Se tiver algum inquérito contra mim, o candidato Divaldo Lara está autorizado a usá-lo em seu espaço eleitoral”, disse Fico. Já em relação a Barragem, o vice-prefeito comentou que a Justiça Federal já devolveu a obra à Prefeitura, e que a verba de R$ 19 milhões para o andamento da obra está garantida no Ministério das Cidades. Informou, inclusive, que as empresas envolvidas no processo já estão autorizadas a participar de novos processos de licitação. “A Prefeitura de Bagé não responde a nenhum processo na Justiça por qualquer acusação de fraude no projeto da Barragem”, disse o candidato.