CRISE

    Provedora da Santa Casa de Bagé fala sobre dificuldades para manter instituição

    12/maio/2016 às 14h46min
     Atualizado quinta-feira, dia 12 de maio de 2016 às 14h47min
    (Foto: Murilo Gonçalves)

    As dificuldades financeiras enfrentadas pela Santa Casa de Caridade de Bagé, cujos repasses a serem recebidos do governo do Estado já superam a marca dos R$ 3,5 milhões, é assunto desde o início do ano. Desde então, o cenário pouco mudou. Tanto que, além dos salários dos médicos, neste mês, a instituição não conseguiu realizar o pagamento da folha dos funcionários até o quinto dia útil do mês. As informações são do Jornal Folha do Sul.

    Conforme a provedora Cledinara Salazar, a situação das santas casas, nos últimos anos, agravou-se muito. “Em novembro, o governo repassou todo o montante. Porém, em janeiro, iniciaram os atrasos. Esses recursos são de serviços já prestados. São valores de tabela. Não tivemos nenhum repasse estadual – e federal há dois meses que recebemos apenas 70%”, comenta.

    A provedora informa que, em abril, o hospital recebeu somente 45% do valor que deveria. “A prefeitura sempre fazia um repasse para a urgência e emergência no valor de R$ 80 mil. Porém, em novembro, entenderam que não repassariam mais, porque a instituição recebia do Estado. Mais um valor que diminuiu por mês”, salienta.

    Salários em atraso
    Os repasses deveriam estar com a entidade entre os dias 15 e 20 de cada mês. Porém, segundo a provedora, isso não vem acontecendo. “Tentamos nos equilibrar, mas não conseguimos. Estamos com duas folhas médicas atrasadas. O convênio alimentação também está em atraso. Neste mês, não conseguimos pagar a folha funcional até o quinto dia útil. A previsão é de que, até o final desta semana, ou no início da outra, realizemos esse pagamento. É uma prioridade nossa”, completa.

    Medicamentos e materiais
    Cledinara confirmou à reportagem as dificuldades em adquirir materiais cirúrgicos e medicamentos. “Estamos devendo para muitos fornecedores. Realizamos um trabalho intenso para não faltar os medicamentos principais, e, até o momento, ainda não faltou. Porém, são necessárias as negociações. Até quando conseguiremos manter, não sei responder”, relata.

    Paralisação
    Em assembleia geral extraordinária realizada no início do mês, os ginecologistas e obstetras plantonistas da Santa Casa decretaram estado de greve. A decisão foi tomada por unanimidade devido à carência de estrutura mínima para o exercício adequado da profissão, além dos atrasos no pagamento de salários.
    A provedora garante que realizou reunião com outros grupos clínicos, como traumatologia, cardiologia e oncologia. “No encontro expusemos a situação. E ressaltamos que esses atrasos só estão acontecendo porque não tivemos repasses. Eles optaram por seguir trabalhando. No dia 17, teremos uma assembleia com toda a categoria e com o Sindicato dos Médicos. Vamos, novamente, deixar explícita a situação. Se decidirem por greve, assim vai ser. Claro, terão que manter atendimentos de urgência e emergência”, ressalta.

    Busca por solução
    A médica explica que, periodicamente, são realizadas reuniões com o Ministério Público. “Precisamos deixar clara a situação em que a instituição se encontra. Na sexta-feira (amanhã), estarei em Porto Alegre, em reunião com o Departamento de Ações Hospitalares para buscar algumas respostas e saber se há perspectivas. Não somos os únicos. Grande parte dos hospitais do Rio Grande do Sul estão em péssimas condições financeiras”, garante.

    Demissões
    A crise econômica que se instalou no país afetou diversos setores públicos e privados. Isso causou diversas demissões e diminuição de vagas no mercado de trabalho. Conforme Cledinara, o hospital fez várias negociações de contrato de trabalho da classe médica e readequação no quadro funcional. “Tivemos que diminuir 10% dos funcionários. Hoje, a Santa Casa conta com 754 colaboradores. Supomos que se viessem todos os valores que estão atrasados, não resolveríamos todos os problemas, porque temos dívidas (mais de R$ 3,5 milhões), e essas aumentam com os juros. Mas ficaria mais fácil de administrar”, completa.
    A folha de pagamento da instituição está em torno de R$ 1,5 milhão. “Nossa prioridade é pagar os funcionários. O primeiro repasse que entrar será para isso”, diz Cledinara.

    Eleições
    As eleições para a provedoria da Santa Casa de Bagé acontecem sempre no mês de maio, a cada dois anos. No dia 30, acontecerá a assembleia que elegerá os novos administradores da instituição. Lembrando que, após a publicação de edital para inscrição de chapas, que deve sair no início da semana, os interessados têm até 48 horas antes do pleito para realizar as inscrições.
    A atual provedora afirma que não pretende concorrer. “Até poderia concorrer para ficar mais dois anos. Mas, quando fui eleita para assumir, levei isso como uma missão. Trabalho desde 1987 na Santa Casa. Foram dois anos de muita dificuldade. Nosso principal contrato é o Sistema Único de Saúde, que vem por meio da secretaria estadual. E não vem sendo cumprido. Fiz meu trabalho com prazer, seriedade e transparência”, afirma.
    Cledinara avalia positivamente sua gestão. “Tivemos crescimento dentro do hospital. Embora a diminuição de funcionários, conseguimos manter forte o trabalho em equipe. Procuramos incentivar os funcionários a crescer profissionalmente. Portanto, acho que cumpri minha missão”, enfatiza.
    A provedora completa: “Precisa de dedicação. Eu tenho outras atividades fora da Santa Casa, que acabei deixando de lado. E pretendo retomar”.

    Melhorias 
    Ela informa que os valores de tabela do Estado estão defasados e desatualizados. “E ainda retiraram um incentivo hospitalar no valor de R$ 350 mil. Lidamos com a dificuldade de não ter cronograma de pagamento e nem o valor que receberemos. Por isso, as melhorias estruturais só foram possíveis devido à ajuda dos grupos de serviços (Rotarys e Lions)”, salienta.
    “A parte estrutural acaba sendo deixada de lado com essa situação financeira. Tivemos a contribuição das campanhas ‘Troco Solidário’ e ‘Troco Amigo’, que ajudam muito”, completa a médica.

    Unidades de Tratamento Intensivo
    Nessa gestão foi inaugurada a UTI Neonatal. “Esse é um projeto que já estava em andamento. Os recursos só poderiam ser usados para esse fim. É uma UTI com todas as especificações técnicas. Tanto que é referência no RS. A UTI pediátrica deve ser inaugurada nos próximos seis meses. Ressaltando que as demais obras estruturais só são feitas por meio de doações”, encerra.

    Jornal Folha do Sul