Cães e gatos de Dom Pedrito e a grande necessidade de mudança com relação a manter um programa contínuo e eficiente de controle populacional e prevenção de doenças

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    Nesta semana, recebemos a pedritense Márcia Coradini, veterinária – doutora na área de pequeno animais –, professora, pesquisadora e clínica na Universidade de Queesland, na Austrália, onde reside há 13 anos. Preocupada com a condição em que muitos animais vivem em Dom Pedrito, Márcia decidiu escrever um artigo sobre o assunto, que será publicado na íntegra. 

    Abaixo, leia o artigo de Márcia:
    Sou pedritense, veterinária especializada em cães e gatos, com experiência no manejo de animais abandonados e na prevenção de doenças. Moro na Austrália há 13 anos, mas mantenho contato com familiares e amigos em Dom Pedrito e retorno para visitar, como o fiz neste Natal. Preocupa-me a condição em que muitos dos animais desta cidade vivem, o destino dos animais abandonados, a falta de um programa contínuo e eficiente de controle populacional e prevenção de doenças para melhorar a situação que, claramente, é precária. 

    Resolvi, então, expressar a minha opinião profissional e fazer sugestões para melhorar, colocando-me a disposição para ajudar. 

    Em Dom Pedrito, o canil municipal, mantido através da secretaria de saúde, tem a principal função de fazer controle de zoonoses, recolhendo animais de rua. No canil cabem em torno de 35 cães. Entretanto, baseado em dados de um levantamento, há três anos haviam 18.000 cães no município. Sem um programa de controle populacional eficiente essa população hoje, com certeza, é muito maior, pois sabe-se que uma cadela e um cão não castrados dão origem a 67.000 cães em 6 anos. A situação com gatos é pior, por serem mais prolíficos. Um casal de gatos não castrados dão origem a 420.000 descendentes em 7 anos se nenhum for castrado. 

    Muitos dos cães e gatos, mesmo em um lar, têm acesso às ruas ou a outras propriedades e não são, na sua grande maioria, castrados, vacinados e everminados corretamente. Dessa forma, continuam procriando, sofrendo com doenças debilitantes, altamente contagiosas e também aumentando o risco de zoonoses, como no caso dos cães, a hidatidose – comum no município. 

    Já que não são castrados, quando cadelas ou gatas têm cria, é bem sabido que, talvez por falta de instrução ou opção, filhotes são mortos de maneira cruel por proprietários; por exemplo, jogados em um rio dentro de um saco fechado ou são jogados pela cidade ou estrada e, na maioria das vezes, sofrem maus tratos, são atropelados, sentem frio, fome e adquirem doenças. Essas atitudes são covardes, desumanas e inaceitáveis em qualquer sociedade; além de serem crimes puníveis dentro da legislação vigente. No canil municipal, os animais são mantidos em grupos, o que gera briga entre eles e ferimentos, ou morte. Além disso, o canil fica localizado em uma zona de difícil acesso à população, o que forma uma barreira àqueles interessados em ajudar ou a adotar um animal.

    Portanto, por mais que o intuito de manter o canil para promover o controle de zoonoses e ao mesmo tempo abrigar cães de rua tenha sido correto, ele não está, neste momento, promovendo nem o controle de zoonoses e nem o bem-estar dos animais do município. Isso, principalmente, porque o número de cães e gatos é infinitamente maior do que o canil pode abrigar, e não existe um programa contínuo de castração, controle de doenças, divulgação de programas de adoção e educação acessíveis à população na cidade ou zona rural. 

    Então, o que fazer? 
    É preciso conduzir um programa organizado e contínuo, com objetivo de promover o bem-estar dos animais, prevenir doenças e reduzir o número de animais abandonados. Muitas pessoas da comunidade, com razão, se preocupam e certamente irão ajudar se houver oportunidade. Eu ofereço ajuda técnica voluntária para desenvolver e manter um projeto. Cabe a autoridades, profissionais e a população local o interesse. 

    Para desenvolver um programa, num primeiro estágio é preciso:
    – Fazer um levantamento, na comunidade, para determinar qual estratégia seria mais eficiente;
    – Alertar a população sobre problemas e métodos de prevenção de doenças de cães e gatos, incluindo zoonoses;
    – Reconhecer que um programa em larga escala precisa de forte apoio e participação da comunidade;
    – Desenvolver um programa que seja adequado às condições locais;
    – Estabelecer parcerias entre órgãos de saúde pública, indústrias privadas, organizações não governamentais e membros da comunidade.

    Como exemplo, na Austrália, com uma população humana de 20 milhões, há aproximadamente 379 organizações que promovem a saúde e bem-estar dos animais de rua, e um grande número de abrigos municipais em cada estado, que aceitam cães e gatos abandonados e rejeitados pelos antigos donos. Estima-se que em torno de 400.000 cães e gatos, por ano, sejam admitidos em abrigos pelo país, que têm a função de manter um programa constante de castrações, vacinações, everminações, tratamento de animais doentes e um programa de adoção. Eutanásia é feita em situações em que os animais não podem ser adotados, por exemplo: por não serem sociáveis, por terem doenças incuráveis ou, dependendo do abrigo, por falta de espaço físico. Esse procedimento é sempre feito de forma rápida, usando um anestésico potente e, dessa forma, não causando stress ou dor nos animais. Entretanto, abrigos tentam constantemente dimuniur o número de animais eutanasiados e há atualmente vários projetos de pesquisa que têm por objetivo final a redução da eutanásia. Essas estratégias, quando implementadas, estão tendo resultados positivos. Como exemplo, alguns abrigos que admitiam 34.000 animais anualmente e eutanasiavam 23.000, há poucos anos, agora só fazem eutanasia de 2.000 por ano. Alguns abrigos faziam eutanasia de 98% dos gatos há 3 anos e agora, o índice é zero. 

    Sugestões que seriam práticas e eficientes em Dom Pedrito seriam a castração de animais em propriedades rurais, castração e programas de adoção de animais e eutanásia dos que não estiverem em condições de serem tratados e adotados. Também pode ser feita a castração e soltura dos animais aptos a viver nas ruas, desde que haja quem os supervisione e tome responsabilidade pela sua alimentação e abrigo, como se faz em Bagé através do programa “Casinhas Amarelas”, pelo Núcleo Bageense de Proteção Animal. Essa organização faz um ótimo trabalho, um exemplo a ser seguido por Dom Pedrito. 

    A educação da população local é parte essencial para manter o programa. Este é o único meio de abrir horizontes, mudar atitudes em relação às pessoas assumirem responsabilidade pelo bem-estar dos animais que possuem e fazer com que o programa tenha sucesso a longo prazo. Podem ser organizadas palestras ou publicações regulares em meios de comunicação – como jornais, rádios e internet -, atividades em escolas e visitas de estudantes a abrigos, dessa forma informando e estimulando a população a agir corretamente e a participar do programa. 

    É muito importante que cães e gatos – machos e fêmeas – sejam castrados. Para isso, treinamento de profissionais locais usando uma técnica cirúrgica minimamente invasiva e segura deve ser feito; também instalações, equipamentos e materiais básicos devem ser organizados de uma maneira que proporcione castração em larga escala. Vacinações e everminações devem ser feitas antes da adoção ou soltura, e os novos proprietários ou responsáveis devem ser instruídos sobre como manter a saúde do seu animal. Fundos seriam arrecadados através do governo local, empresas privadas, instituições não governamentais e doações por membros da comunidade. 

    Assim como muitas outras, essa é mais uma causa que precisa urgentemente ser abraçada pela população. Muito trabalho é preciso ser feito até que haja uma melhora da situação atual. Cães e gatos – assim como humanos e outros animais –  sofrem por frio, fome, medo. Eles têm sentimentos parecidos com os das crianças. Nós, humanos, somos totalmente responsáveis pelos animais que domesticamos e que dependem de nós por não saberem cuidar de si mesmos.

    Por último, espero que através dessa publicação tenha alertado alguns e dado um primeiro passo a caminho de mudança. Deixo a seguinte mensagem: “Gente que fala com bicho e plantas são muitas vezes chamadas estranhas. Pois então que eu possa contribuir para que hajam mais pessoas estranhas no mundo. Gente de coração desarmado, sem ódios e preconceitos, gente que dança na chuva e se alegra com o sol, gente que faz o bem, que fala de amor e alegra os outros com seus olhos iluminados. Gente que fica horas observando a natureza e tentando decifrar seus mistérios. Gente forte e valente, ao mesmo tempo humilde e serena. Gente que semeia, colhe, orienta, aconselha, busca a verdade e quer sempre aprender, mesmo que seja de uma criança, de um analfabeto, da natureza. Gente que tem como missão distribuir amor com a mesma serenidade com que distribuem o pão. Como diz Graça Azevedo, que também escreveu muitas palavras deste parágrafo: …… que seja abençoada toda essa gente estranha.”

    Email para contato: m.coradini@uq.edu.au
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